Sobre o Amor e suas buscas
- Pelos Poros
- 1 de mar. de 2018
- 5 min de leitura
Duas semanas atrás, depois do meu primeiro encontro com o grupo, na verdade no dia seguinte, comecei a escrever sobre o Amor... Compartilho aqui uma vulnerabilidade em forma de história.
Sobre o Amor...

Aprender a amar é talvez como ir em busca do amor. Não em busca só de receber ou de se encantar, de se ter atração... Mas ir à sua busca, ir adiante, continuar, ir atrás, querer sentir onde ele se encontra - O que exige parar e sentir, ouvir, ser atenta tanto à falta, que traz a fome, como aos vestígios, rastros de onde ele surge e pra onde ele aponta, se direciona. Pensando no amor como uma energia que move, como uma seta num mundo de águas, dentro do mar, começo a escrever sobre quando ele encontra limite e os desafios desse dilema, muito sentido e sofrido, pelo menos por mim.
Descia há alguns anos, gradualmente, como que cavando seu lugar nas águas mais fundas e bem desconhecidas, chegando a estender-se na sua relação em tempo, em vivência consigo e seu próximo, como nunca antes nessa vida, quando, mesmo se aprofundando, o Amor encontrou àquelas mesmas águas turvas que aparentemente sempre conheceu, pelo menos desde criança. Àquelas que lhe deixavam confuso, meio cego, momentaneamente, e por muitos momentos intermitentes, como que perdido, até certa estagnação, ficando sem quase sentido. Em estado arrastado com a dificuldade, inquieto como é o Amor, foi ficando ainda mais agitado, intensificando a sua frequência, só que quase sem se deslocar, diante do limite das águas, tão densas que eram nesse lugar. Era atrapalhado por essas águas, e pela própria inquietação: foi refratado pelo denso que virou limite, bateu no obstáculo e, formando um ângulo, partiu pra outra direção, pra um lado quase oposto: pra cima, no raso.
Só que o ângulo que formou quebrou com a sua linha, criou uma ruptura, uma quina pontiaguda, que pôde até ferir quem tentava ali também achar junto lugar. E nessa virada aguda parte foi pra cima, parte ficou lá, todas uma só, só que separadas. Pelo ferimento de quem ficou e pela existência dessas águas densas que bloqueavam, lhe dificultavam caminho, sofria tristeza... se machucava também.
Mas, o caso é que, sua luz, nas águas desse lugar, perdia o brilho, perdia agilidade, a liberdade de fácil mover que tanto o estimulava. E isso, nunca por maldade, mas realmente por necessidade, o Amor, poderia resistir (não sem ajuda), pois tinha sua maior e principal condição que é a vontade de expansão, de ser livre, ou incondicional, mesmo que só em meta, que é seu direito de Vida.
Então, o Amor Libertário que é, partia pra outra direção, no alto, pra um foco que muito lhe atraía, já percebido em várias outras ocasiões: um ser interessante, não tão conhecido em prática, mas em espírito sim, pelo olhar, forma, luz e afins. Subia como uma flecha, mais intenso provável compulsivo, com relances de um possível encontro mais elevado no mar. - E quando a inteligência indagava, ela própria explicava que o novo talvez pudesse ser melhor: não lhe deixaria passar por àquelas ou outras mesmas águas, turvas, impedidoras, como àquelas das tão pesadas moribundas.
No impulso o Amor chegou até pensar, uma vez ou talvez mais, que quem sabe seria mesmo certo, seguir de encontro com o que despertava aquela busca por mais.
Mas, o que o Amor sabia era que não podia, pois na verdade não corria inteiro, parte sólida ficava e se conectava por laços: lindos, fortes e, claro, profundos, com muito comprimento de histórias, com outro naquele lugar, onde mais imerso e confuso. E o que Ele meio sabia era que também o novo, provável, não poderia lhe corresponder ou mesmo estar ali ao mesmo alcance do que era o seu, pois pra começar, mal sabia quem era Esse, e tão pouco que era almejado por Ele. Olhava pra outros lugares, e na verdade não estava realmente ali - o lugar era só uma representação do nível em que se conheciam. Provável também que seria, mais imagem, e algumas outras coisas desse tipo (que impressiona), do que palpável para um possível abraço com o Amor, esse de quem conto a história.
Dito e feito: por toda a situação, não havia pro encontro (agora ao contrário) quase nenhuma densidade. O Amor continuou no impulso, mas encontrava só mais espaço e, sem nada quase que o segurasse, já quase na margem entre água e ar, saltou pra o quase vazio(!) Fez curva e desceu caindo, de volta nas águas descia ainda mais veloz, pelo salto, pelo ar, atravessando com mais força, ganhando velocidade e, sem saber, indo mais fundo, cavando, naturalmente, mais lugar, abrindo mais longo caminho, no que de fato descobria, que era o seu coração e missão.
Agora, ainda em processo, o Amor continua buscando (ou sendo buscado), aprendendo que as vezes além de veloz, pode demorar, pode conhecer além de desconhecer, o novo no velho, e o velho no novo. O Amor é querido, é tão querido que onde há falta, a busca começa.
E quem busca quem é?
Se o Amor é tudo, na falta - que é de onde surge a busca - quem busca é o próprio Amor, quem mais poderia ser? Na falta surge o desejo, que é o próprio disfarce no Amor, desejo de encontro de ser, de encontro maior pra si, pro mundo, pra vida no mesmo Amor de cada um. É uma parte do Amor que rastreia onde for, pra se encontrar e se unir às outras, com a intenção e função do mar que é sempre o de amar sem parar.
E quantas vezes, se vezes, o Amor refratado precisa, no seu percurso fatal, cair pra abrir ou cavar além dos limites mortais?
Quantas for preciso, pra que abra caminho, mesmo que seja pra que una e separe, pra que tome força e volume, não só rapidez e a leveza das flechas... pra que exerça o que quer, Inteiro, lembrando do que colheu, do que deseja plantar, agindo pros seus encontros, serem plantas com raiz à folhagem, livres pro alimento de si e do mundo. Quantas vezes precisa subir e cair, subir e cair?
Até que aprenda a dançar, mesmo subindo e caindo, nos meios que houver, mesmo no novo ou no velho, no ar ou no mar, pra que aprenda a amar. Não o amar só de receber ou de se encantar, de se ter atração... Mas o de ir à sua busca, ir adiante, continuar, ir atrás, querer sentir onde se encontra - O que exige parar e sentir, ouvir, ser atenta tanto à falta, que traz a fome, como aos vestígios, rastros de onde Ele surge e pra onde aponta, se direciona.
Depois, um dia e alguns dos demais, veio a música, com a letra-canção parecendo mágica, perfeita, moto novo pra lembrar:
*
“Sim, todo o amor é sagrado
e o fruto do trabalho é mais que sagrado,
meu amor
Abelha que faz o mel
vale o tempo que não voou.
Tudo que move é sagrado
e remove as montanhas
com muito cuidado,
meu amor”
*Amor de índio, de Bete Guedes.
Texto: Nelly Bodely





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