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Ressaca Sensorial

  • Foto do escritor: Pelos Poros
    Pelos Poros
  • 4 de abr. de 2018
  • 4 min de leitura

Atualizado: 7 de abr. de 2018

Ressaca! Não só do vinho, mas também das experiências mentais e corporais vividas no Gaia, entendido este como algo portátil que se leva para outros espaços com toda a abertura do ambiente primário. 


Celebração semana passada, Gaia portátil Farine. Ontem o Gaia trazido ao espaço do querido casal. Pães, queijos e vinhos como coadjuvantes. Papo reto, reflexivo, profundo, honesto, como protagonista. A entrega, sempre ela. Como contemplar, sentir, dar, receber, experienciar, viver sem ela¿


Representação, artificialidade, acting out, atuação, parâmetro para referenciar ou não. Entrega ou não entrega¿ Se se tem algo que queira, por que não¿ Ah tenho, mas não estou podendo agora, no delivery, ok! Quero, mas não tenho, não tenho e não quero, ok, ok, cada qual respeitando o seu momento.


A mim não me importa a qualidade da entrega, não faz diferença, pois por onde quer eu comece, atuando ou não, sem mesmo poder quantificar num caso ou noutro, sei que não poderei estar no controle por muito tempo.

Posso saber quando e como começa, mas não sei como termina. Aliás, quando termina não sou mais o que começou. Algo deslocou, moveu, abriu, fechou, morreu, nasceu, enfim impactou, transformou. Por alguns instantes entrei no felt sense, vivi a sensação sentida ou por ela fui vivido. Isso é o mais significativo para mim e me basta.


Minha vez de me aventurar, de joelhos bem apoiado, checando possíveis recursos dentro de mim para eventuais desconfortos. De olhos bem fechados começo a sentir os toques firmes, rasgados, calorosos. Braços, peito, ombros, pescoço, muito calor, ainda controlo, as mãos agitadas e suaves ganham a minha testa, o meu rosto. Me sinto relaxado e seguro para descer ao labirinto com a confiança do fio de Ariadne. Posso ir, me perder sem a fantasia terrível de nunca mais retornar, de enlouquecer, de desaparecer no absoluto ostracismo, de ser nada.


Dentro do meu labirinto não tenho mais nenhum controle. Vou indo cada vez mais longe, seguro que Ariadne me mantém conectado pelo fio, mas não sei o que estou buscando. Sensação de imensa paz, vou me deixando levar, relaxando, levitando, flutuando. Um grande oceano, um regresso talássico dentro de um pequeno útero quente e acolhedor.


Sinto que estou meio cá e meio lá. Sinto a presença de Ariadne ao mesmo tempo que não sinto. Sinto vontade de ficar mais pouco no Nirvana, não tenho mais medo de ficar perdido no espaço sideral como um astronauta que se desconectou de sua nave ou de me quedar como um toco boiando na imensidão do mar ao deus dará. O medo da morte, do vazio, de ser um nada, vão se dissipando.


Hora de voltar. Na relação com Ariadne pude dissociar, entrar em contato com as minhas fantasias de medo, num processo ínfimo e sutil de refazimento, reconstituição e transformação. Assim posso viver com um pouquinho mais de leveza o muito que ainda quero viver. Gracias a la vida que me ha dado tanto! Gracias por sustentar o meu fio com respeito e amorosidade, queridíssima amiga.


Passo dos olhos bem fechados para os olhos bem abertos. Rara oportunidade, grupo tão especial me suscitou fome, muita fome de me trabalhar, de sentir, de viver um pouco o meu mundo interno na relação com cada um deles.


No centro da roda deitado troco olhares com todos de pé. No controle vou percebendo cada olho, cada olhar, cada sentimento em mim e neles. Evitações, indiferenças, reprovações, solicitudes, doações. Me deixo afetar, mas estou recursado e no controle. Seguro a minha onda!


De repente vinculo. Um olhar poderoso que não julga, nem solicita amor como de costume, apenas me olha com imensa ternura como a renunciar a qualquer reciprocidade. Me encanto, olhando para ela sinto vontade de entrar dentro de mim de olhos bem abertos.

O fio agora não são mais as bordas do corpo, o toque caloroso, o cuidado compassivo. O fio agora é apenas a ternura de um olhar. Ainda no controle fico em dúvida se entro ou não. Situação de extrema fragilidade. Basta um pequeno desvio no olhar, um pensamento que naquele momento se instale no olhar de quem me olha, um olhar sem conexão por uma fração de segundo, e baubau.


Mas a ternura fala mais alto e lá vou eu viver o que tem para ser vivido. Vou checando a consistência do vínculo a cada momento, até que não vejo mais. Apenas sinto. O meu buraco está logo ali. Me entrego às sensações e sabedoria do meu corpo para me conduzir neste vazio de mim mesmo. É sofrido, dói pra caramba. Não é mais o Nirvana, são as trevas da minha existência. É como visitar a minha própria cripta de algumas das minhas mortes emocionais.


Me agarro na ternura do olhar, e ele está ali, que alívio. Mas o sofrimento não dá trégua, e para além do olhar, alucino um par de seios que me protejam, me aqueçam, me acalmem. E de repente os sinto em meus joelhos, nas minhas mãos, nos meus pés, no meu peito. Benditos seios da generosidade e da compaixão.


Agora sei que vou sair do meu vazio mais apaziguado. Ouço “como é bom ter você aqui com a gente” ou algo parecido, e vou me despedindo com alguma dificuldade da Ternura. Estou de volta. Todo cambia, gracias Ternura, gracias a la vida una vez más. Gracias muitíssimo querido(a)s companheiro(a)s de viagem. Escrevendo agora me vem a frase da grande escritora: “falar é um ato, sentir é um fato”.


Como ia dizendo lá no início, ressaca! Não só do vinho, mas também das experiências mentais e corporais vividas no Gaia, entendido este como algo portátil que se leva para outros espaços com toda a abertura do ambiente primário. O Gaia portátil veio à celebração e foi bastante bem acolhido entre vinhos, queijos e boa música. E tudo terminou com dança de belos movimentos. Não tive ânimo para sair dançando, e me permiti ficar observando.

Me dei conta de que a dança se parece com a entrega. Começa na cabeça, com alguns movimentos conhecidos e racionalizados, mas a medida que se deixa afetar pelo ritmo da música o corpo toma conta, e passa a fazer movimentos espontâneos e harmônicos que nenhum planejamento mental conseguira reproduzir com tanta graça, vitalidade e leveza.

É como se o corpo com sua sabedoria fosse encontrando as melhores soluções possíveis para se mover no ritmo das sensações geradas nele pela música. Assim como a entrega, a partir das sensações corporais do contato, do toque, do olhar, das emoções, enfim da relação com o outro e com a vida.


Mauricio Buzanovsky

 
 
 

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