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Será dissolução?

  • Foto do escritor: Pelos Poros
    Pelos Poros
  • 7 de abr. de 2018
  • 4 min de leitura

Estar atento a tudo o que pinta, mascaras ou não, e revelar aquilo que é, como é e porque é na nossa pequena Ágora de afetos fraternos. A gente oferece é apenas aquilo que gente pode, ainda assim oferece-lo com alguma nudez indefesa, com transparência vulnerável é um desafio.


Mesmo que o que a gente coloque em pauta, em gesto, na ansiedade que vibra no ar, ainda seja um objeto transacional, algo que apenas tangencialmente nos representa para que não exponhamos nossas partes macias assim tão fácil, acredito, o colocamos em confiança para que seja exposto em toda sua função, em toda sua proteção e blindagem, para que estas sejam vistas e acolhidas naquilo que são, facetas da nossa humanidade em busca de cura, em busca de saúde, em busca de afeto. aceitação e felicidade, e transformação.


Fechamos a porta da sala, e ainda que por vezes nossa fala e agitação pareça obstruir nossa busca, macaquinhos ansiosos que somos antes do perigo, nos permitimos por uns instantes admirar e nos emocionar com concertos de improviso de toques na peles, atravessamos espaços psicológicos com as luzes do olhar, tocando falando e sentindo em nós a pressão das óticas compartilhadas. Excitação e depressão caminham juntas, medos e curiosidades, territórios evitados, projeções, irritações...


Traçamos algumas regras e nos perdemos quase instantaneamente ao nos esquecermos delas, ou nos chocamos por perceber que queremos aderir a algo tão insubstancial quanto uma regra vaga e lúdica.


Percebemos com algum sobressalto que buscamos algo que nos molde e oriente antes do nosso mero contato sensorial, como se isso fosse segurança, como se isso fosse conforto.

Buscamos o olhar da professora para não nos perdermos na criatividade pura do jardim de infância, felizmente a professora se perde conosco. E se as vezes nos perdemos um pouco, encontramos assim um pouco duma essência original, e o sino de chamada não consegue nos chamar, e não ha quem nos chame ou que ainda queira faze-lo, ou parece haver um para aonde ser chamado.


Sensivelmente, por outros caminhos, sabemos em um tempo certo retornar, recompor, puxar a rede da pescaria que encontra mais um tesouro. Sabemos trazer para os humanos, homem e mulher, cativos em seus processos, em suas falas, em seus papeis,


algo que atravessa as rachaduras da armadura, e que chama continuamente. Serão sereias e nereus na imensidão dos oceanos? Devemos temer ou usar todo o folego nesse mergulho? Será a amplidão da loucura, ou é o encontro da sanidade que nos mostra a sufocação em que estamos? Será dissolução, ou meramente o encontro de um espaço pais amplo e pleno em nós mesmos, uma dimensão inesperada encontrada na interpessoalidade segura?

Eros e Thanatos não podiam deixar de estar presentes, bem como nosso pendor para o drama, para a comédia, usados para comunicar ou para esconder, e nossa capacidade para indiferença, alienação e blindagem.


Apropriar-mo-nos das nossas falas e questões, não transferindo para o outro a responsabilidade da nossa presença, e da nossa pulsão, ainda assim vivendo com o outro a experiencia de um surgimento entre nós justificado apenas enquanto e porque surge entre nós sem fundamentação ulterior, numa comunicação presencial que nos faz comuns, como uns aos outros, dados e recebidos, e retransformados. Sem agenda, sem manipulação, sem ganho posterior... Novos entrantes questionam a velocidade que projetamos em nossas corredeiras de fantasias e expectativas, e nos sugerem que talvez um passo mais calmo nos leve melhor.


Mas aonde vamos aqui senão nos libertar de irmos aonde estamos indo, levados por nossos planos, sem nos dar conta do Jardim e da Infância? Como perceber as corredeiras sem fim da nossa trepidação ansiosa sem nos permitirmos mergulhar juntos a mão na sua insubstancia? Ao mesmo tempo que me assusto com isso vejo que busco uma nudez profunda diante duma luz fora de mim. Essa seria uma nudez inocente mas adulta, pois sendo madura e perdoada é sábia e é boa, e é saudavel, e é humana e comum. A ansiedade diante desse escrutinio que desconstroi, dessa exposição que busca justificar-se, explicar-se ao mesmo tempo que se reproduz e se mantem como um EU, isso talvez se amaine sem se romper, talvez encontra a agua calma do lago placido, eventualmente, sem grandes dramas, sem grandes loucuras e apocalipses, ou julgamentos, ou catarses.


Talvez essa luz cáustica hoje, exigente e opressiva, vinda de um sentimento que o mundo precisa de uma redenção radical, do advento de um poder surpreendente e organizador de justiça e administração, de alguém do altíssimo que separe o impio do puro, defina o bem do mal, redima o despossuído e violentado, talvez essa luz seja apenas o brilho singelo e são, o farol simples do desejo de amar e ser amado, a coragem de estar vivo e presente, saindo das cavernas e prisões de ideias sobre o mundo para entrar no mundo.


Vestidos de corpos tão sagrados porque comuns, sensíveis porque simples e vivos, poderosos porque mortais e transitórios...

E assim eu toco e vibro, e assim sufoco e talvez estimule meus queridos pares nessa exploração num se perder, colocando minha auto-absorção, minhas elaborações e exageros e minha necessidade de atenção, meu erotismo, minha masculinidade e machismo, meu temor infantil de ser levado por forças que não domino, que tento agradar e propiciar, para ser aceito. E mesmo quieto observando eu coloco esse pacote na sala, pra ser descompactado, para que as traças dos pergaminhos velhos alcem vôo, para que o que haja de música viva se liberte e volte a dançar, para que a memória autentica, a raiz viva e essencial se cicatrize e reencontre sua nutrição ancestral, e para que os frutos, ah, pra que os frutos se tornem doces, necessários e desejados, e alimentem a vida que segue.


Guga Casari

 
 
 

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